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Economia COLUNA

As mentiras que moldam nossas vidas

No campo do noticiário econômico, a mentira já está popularizada há mais tempo, ao ponto de parecer muito natural as afirmações categóricas

03/04/2021 20h23
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Por: Guilherme Henrique Pereira
Foto: Mufid Majnun / Unsplash
Foto: Mufid Majnun / Unsplash

Nesta semana, passamos pelo 1º de abril, dia internacionalmente reconhecido como o da mentira. Até pouco tempo era muito mais comum as brincadeiras de inventar uma notícia bombástica para assustar um familiar ou um colega de trabalho. De poucos anos para cá, as mentiras (fake news) tornaram-se tão comuns, circulando todos os dias nas redes sociais, que as brincadeiras em 1º de abril perderam a graça.

Mas, é por conta das brincadeiras nesse dia que os militares, há 57 anos, celebram a “revolução” (na verdade, mais lembrada como golpe militar) no dia 31 de março (que, na verdade, é a véspera) das tropas nas ruas para a deposição do Presidente João Goulart, seguida da posse interina de Ranieri Mazzile, deputado paulista que assumiu por ser o presidente da Câmara.

Na verdade, não pode mesmo ser marcado como um evento ocorrido no dia da mentira. Foi um fato histórico com consequências até o presente. A continuidade foi de anos muito duros para a vida política dos brasileiros, particularmente para muitos que tiveram amigos e parentes desaparecidos ou torturados. Difícil para ser lembrado, mas é necessário não ser esquecido para que nunca mais permitamos que aconteça entre nós.

No campo do noticiário econômico, a mentira já está popularizada há mais tempo, ao ponto de parecer muito natural as afirmações categóricas de supostos especialistas em economia, que ouvimos diariamente nos jornais, e, às vezes, em até algumas faculdades na periferia do mundo científico da economia política. Tão difundida ao ponto do professor José Luis Ourique (Universidade de Brasília) já ter formulado a hipótese de que os brasileiros vivem em uma realidade paralela ao resto do mundo, forjada no desconhecimento dos progressos das pesquisas em ciências sociais, especialmente em economia política.

Já propalada há bastante tempo é a mentira de que os governos não podem gastar mais do que arrecadam, porém, agora, com mais frequência nesse momento em que a porta de saída da crise sanitária e econômica que vivemos passa necessariamente pelos gastos e investimentos dos governos.

A afirmação básica (mentira, nas atuais circunstâncias) é de que a geração de déficit implicará em a dívida pública e que isso é inflacionário. O pior é a ilustração adotada para explicar o problema: “os governos são como a nossa casa, não podemos gastar mais do que ganhamos.”

Ainda não se sabe até onde as afirmações têm base na ignorância ou na cínica defesa de interesses do sistema financeiro. Por ser mais fácil para argumentar, falemos primeiro da ilustração. A nossa casa não pode ser comparada, de forma alguma, com um governo por muitas razões. Primeiro, o chefe de família não tem a prerrogativa de emitir dinheiro, ele simplesmente está no mercado vendendo sua força de trabalho para trocar por mercadorias que necessita; o dinheiro para ele é finito e apenas meio de troca. Segundo, ele não tem a responsabilidade de fazer política econômica. Terceiro, os cidadãos quando querem “investir” (comprar um carro, uma casa, etc) precisam guardar dinheiro para tanto (pagar à vista ou ter fundos para pagar a prestação do empréstimo) e sua renda é limitada pelas horas de trabalho que vende.

Ao contrário, os governos têm a responsabilidade de fazer política econômica, ou seja, o seu maior ou menor gasto tem efeitos sobre a dinâmica da economia como um todo e sobre a distribuição do resultado da atividade econômica entre as pessoas. Há sempre demandas não atendidas em saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico, portanto, o governo deve gastar tudo que arrecada. Poupança de governos significa prejudicar a geração presente, deixando de atender carências de hoje para beneficiar gerações futuras.

Logo, não faz sentido os governantes realizarem superávits, quase sempre expressos em elevadas aplicações financeiras (reservas). As gerações futuras devem ser beneficiadas pelos resultados dos investimentos públicos realizados com preços de hoje. Não é justo que recebam carências acumuladas que necessitaram de muito mais recursos para superação. Outro diferencial muito importante: as receitas dos governos dependem diretamente da atividade econômica: quanto maior o PIB, maior a arrecadação. Quando o governo realiza gastos (construir uma estrada, por exemplo) as empresas fornecedoras empregarão pessoas, que, por sua vez, irão ao mercado comprar bens. É essa circulação que faz a economia andar.

Comentemos um pouco a outra mentira, que exige um argumento ligeiramente mais complexo. Os déficits públicos geram inflação? O debate sobre este ponto vem de longe e é muito mais extenso, mas, façamos uma simplificação compatível com o espaço que temos aqui. Os déficits poderão ter consequências sobre o nível dos preços quando a economia já estiver a pleno vapor. Nesta situação, os governos devem ter cautela e o cuidado na escolha de onde gastar suas receitas, que devem estar em alta, acompanhando o nível de atividades. Procurar os setores da economia ainda não aquecidos.

No Brasil, estamos com recessão ou baixo crescimento desde 2014, então, nenhuma possibilidade dos gastos públicos afetarem o nível dos preços. Exatamente o contrário. É hora dos governos turbinarem seus investimentos, até com endividamento, para que os seus fornecedores, ao produzirem, possam empregar mais: menos desempregados, mais consumidores no mercado. Maior PIB, maior arrecadação, compensando, no segundo momento, os gastos realizados. De outro modo, cortar gastos, como quer o Guedes, vai definitivamente em sentido de aprofundar a crise.

Guilherme Henrique Pereira é Professor; Doutor em Ciências Econômicas; Ex-Secretário de Estado nas pastas de Ciência e Tecnologia; e Economia e Planejamento; Editor da Revista Debates e em Rede (debatesemrede.com.br); e Autor do livro Economia, Governos e suas Políticas.

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Guilherme Henrique Pereira é Professor; Doutor em Ciências Econômicas; Ex-Secretário de Estado nas pastas de Ciência e Tecnologia; e Economia e Planejamento; Editor da Revista Debates e em Rede (debatesemrede.com.br); e Autor do livro Economia, Governos e suas Políticas.
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